O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou no Flow Podcast prometendo responder a qualquer pergunta e saiu quase duas horas depois afirmando que espera vencer a eleição já no primeiro turno. No intervalo, atacou Flávio Bolsonaro, cobrou explicações de Alexandre de Moraes, defendeu o filho Lulinha e prometeu uma reforma capaz de alterar até a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
A entrevista foi exibida na noite de quinta-feira (1º), a três dias do primeiro turno, e chegou a aproximadamente 1,65 milhão de espectadores simultâneos. A audiência superou o recorde alcançado pelo próprio Lula no programa durante a eleição de 2022.
O encontro aconteceu no mesmo horário reservado inicialmente ao debate da TV Globo, cancelado depois de decisões judiciais que alteraram as condições do programa e da desistência de candidatos. Lula já havia anunciado que não compareceria.
Logo na primeira pergunta, Igor 3K quis saber por que o presidente havia escolhido o podcast. Lula respondeu em tom de brincadeira: “Porque eu gosto mais de você do que da Globo”.
Por que Lula não foi ao debate?
Lula afirmou que considera “infrutíferos” os debates com muitos candidatos. Segundo ele, o modelo impede discussões profundas, favorece pegadinhas e transforma a disputa pela Presidência em uma competição para descobrir quem produz a melhor frase ou “lacra” mais.
O presidente defendeu uma espécie de divisão dos candidatos conforme o desempenho nas pesquisas. Usou como comparação as séries A, B, C e D do futebol e argumentou que concorrentes com 1% das intenções de voto não deveriam enfrentar, nas mesmas condições, nomes que aparecem próximos de 50%.
Igor 3K questionou se a ausência não representava uma estratégia para evitar riscos na reta final da campanha. Lula negou que tome decisões apenas com base nas pesquisas, embora tenha reconhecido que utiliza os levantamentos para ajustar o discurso e a estratégia.
Ele também recuperou antigas disputas com a Globo, relembrou a cadeira vazia exibida pela emissora quando faltou a um debate de 2006 e disse que a empresa não submeteu Fernando Henrique Cardoso ao mesmo tratamento nas eleições de 1994 e 1998.
Ataques pesados contra Flávio Bolsonaro
O trecho mais eleitoral da entrevista começou quando Lula foi questionado sobre uma possível conveniência em enfrentar Flávio Bolsonaro no segundo turno. O presidente rejeitou a análise e classificou o adversário como “desqualificado”.
“Ele não tem passado, não tem presente e não tem futuro”, afirmou. Lula relacionou Flávio a suspeitas envolvendo milícias, Daniel Vorcaro e o Banco Master, além de mencionar a atuação do senador na defesa de um policial acusado pela morte de uma criança.
O presidente também chamou Flávio de “vira-lata” e “traidor da pátria” ao falar da relação da família Bolsonaro com os Estados Unidos. Segundo Lula, seu adversário não teria preparo nem mesmo para ser “síndico de prédio”.
Uma das afirmações feitas por Lula, entretanto, estava errada. O presidente disse que Flávio havia sido eleito vereador aos 21 anos. Na realidade, o filho de Jair Bolsonaro foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro em 2002. Quem iniciou a trajetória política como vereador foi Carlos Bolsonaro.
Lula disse ainda não compreender por que alguém votaria no senador e atribuiu parte do apoio recebido pelo adversário a um sentimento contrário ao PT, às políticas sociais e à presença de pobres e negros nas universidades.
Vitória no primeiro turno
Apesar das pesquisas apertadas, Lula afirmou em dois momentos acreditar que a eleição pode terminar no domingo (4).
“Acho que essas eleições vão ser definidas domingo. Se não for, paciência”, declarou no começo da conversa.
Nas considerações finais, foi ainda mais direto: “Estou achando que vou ser eleito domingo”. O petista apresentou sua experiência, a relação com as camadas mais pobres e a parceria com Geraldo Alckmin como os principais diferenciais de sua candidatura.
Lula também indicou que, se eleito, este deverá ser seu último mandato. Em tom descontraído, disse pretender viver até os 120 anos, mas tratou os próximos quatro anos como o encerramento de sua trajetória no Palácio do Planalto.
Banco Master e cobrança ao Supremo
O escândalo do Banco Master dominou uma parcela significativa da entrevista. Lula disse que Daniel Vorcaro não era apenas um suposto criminoso, mas um “mágico”, em razão da quantidade de empresários, políticos, autoridades e personalidades que conseguiu aproximar.
Para o presidente, a investigação precisa atingir todas as pessoas envolvidas, independentemente de cargo ou posição política. Lula afirmou que o caso está deixando “todo mundo nu” e mencionou as relações atribuídas ao apresentador Luciano Huck com Vorcaro.
O petista confirmou ter recebido o banqueiro uma vez, por aproximadamente meia hora. Segundo sua versão, Vorcaro alegou que estava sendo perseguido politicamente. Lula teria respondido que a apuração era conduzida pelo Banco Central e que ele pagaria caso fossem constatadas irregularidades.
Durante a conversa, o presidente também comparou o encontro ao episódio em que recebeu Silvio Santos após a crise do Banco PanAmericano. Lula afirmou que o apresentador chegou a chorar no encontro e demonstrou medo de ser preso.
Moraes deve explicações, diz Lula
Ao discutir as relações de integrantes do STF com o Banco Master, Lula adotou um tom incomum para um presidente da República. Declarou que Alexandre de Moraes deve explicações à sociedade sobre o contrato firmado pelo escritório da mulher dele.
Segundo Lula, Moraes poderia ter esclarecido publicamente que está afastado da advocacia há anos e que a mulher administra o próprio escritório. O presidente criticou o silêncio do ministro e fez uma ironia envolvendo o Corinthians.
“Na hora de ir ao estádio do Corinthians e dar dedo, ele vai”, disse Lula.
O presidente afirmou que a sociedade também tem o direito de saber se são verdadeiras as suspeitas envolvendo Dias Toffoli e outras autoridades. Ressaltou, porém, que a insatisfação dos bolsonaristas com Moraes nasceu da atuação do ministro nos processos contra Jair Bolsonaro, e não do caso Master.
Lula elogiou a prisão do ex-presidente pela tentativa de golpe e disse ter afirmado a Donald Trump que ele também seria preso caso praticasse no Brasil atos semelhantes aos registrados nos Estados Unidos.
Lula defende reforma profunda no STF
O presidente declarou que pretende discutir uma nova reforma do Poder Judiciário caso seja reeleito. Entre as mudanças defendidas estão a criação de mandatos para ministros do STF e a retirada do poder exclusivo do presidente da República de indicar integrantes da Corte.
A proposta mencionada por Lula prevê um conselho formado por representantes da sociedade civil para participar da escolha. O presidente argumentou que um integrante da Suprema Corte deve encarar a função como um “sacerdócio” e não pode entrar no tribunal com o objetivo de enriquecer.
Lula também criticou a exposição provocada pela TV Justiça, os votos excessivamente longos e as discussões públicas entre ministros. Para ele, o comportamento da Corte está provocando perda de credibilidade.
O petista contou ter procurado o presidente do STF, Edson Fachin, três vezes durante a crise. Disse que pediu ao ministro para interromper os vazamentos seletivos, assumir a condução institucional do caso e evitar a degradação da imagem do tribunal.
Sobre o pedido de vista de Flávio Dino, Lula negou ter exercido qualquer influência. Argumentou que os ministros indicados por ele não lhe devem favores e recordou decisões contrárias aos próprios interesses tomadas por integrantes que nomeou.
Defesa de Jaques Wagner provoca controvérsia
Quando Igor perguntou sobre a participação de Jaques Wagner no início da trajetória do grupo ligado ao Banco Master, Lula afirmou repetidas vezes que o senador “não tem nada a ver” com o escândalo.
O presidente disse que Wagner deseja prestar depoimento, mas não pode decidir quando será chamado. Também atribuiu a transformação do antigo Banco Máxima no Master à autorização concedida pelo Banco Central durante o governo Bolsonaro.
A defesa enfática não encerra a controvérsia. Investigações ainda em andamento apontam indícios de vantagens econômicas supostamente recebidas por Wagner. O senador nega irregularidades e sustenta que não teve participação nas fraudes posteriormente atribuídas ao banco.
Lulinha terá de prestar contas
Lula também foi questionado sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, citado em suspeitas envolvendo lobistas e o esquema de descontos indevidos do INSS.
O presidente afirmou duvidar que o filho tenha procurado ministros do governo para fazer lobby. Disse, contudo, que Lulinha precisará comparecer às autoridades e responder às acusações.
“Se ele fez uma coisa errada, ele pagará pelo erro que cometeu”, declarou. Lula acrescentou que não pedirá à Polícia Federal para proteger o filho e afirmou que a solidariedade familiar não representa imunidade.
O petista negou conhecer pessoalmente a lobista Roberta Luchsinger. Disse que pode ter tirado fotografias com ela, como faz com milhares de pessoas, mas classificou a empresária como uma “pilantra” e a comparou a Vorcaro.
Irmão de Lula e escândalo no INSS
Questionado sobre o irmão Frei Chico, vice-presidente de uma entidade relacionada ao caso do INSS, Lula declarou que ele não teve participação nas irregularidades.
O presidente argumentou que o irmão, aos 84 anos, ocupava uma função secundária no sindicato e não aparece formalmente como investigado. Também afirmou que a entidade possuía associados e atividade sindical real, ao contrário de organizações supostamente criadas apenas para realizar descontos.
Sobre o esquema, Lula declarou que a Controladoria-Geral da União investigou o caso silenciosamente durante dois anos para evitar a fuga dos envolvidos. Segundo ele, aproximadamente 5 milhões de aposentados foram identificados como vítimas e receberam ressarcimento.
Lula também afirmou que cerca de R$ 6 bilhões em bens foram bloqueados dos investigados e poderão ser utilizados para compensar os prejuízos.
Proibição das bets e pressão de Igor
A discussão sobre as apostas provocou um dos momentos mais tensos da entrevista. Lula relatou ter mudado de posição após conversar com pessoas endividadas.
Entre os casos citados estavam um empresário com dívida de R$ 2,3 milhões, uma comerciante que devia R$ 730 mil, uma mulher que teria tentado tirar a própria vida três vezes e uma mãe que perdeu o filho de 26 anos.
Lula também contou ter emprestado dinheiro a uma pessoa que alegou enfrentar problemas comerciais. Inicialmente, afirmou ter entregue R$ 24 milhões, mas foi corrigido pela assessoria durante a entrevista: o valor era de R$ 24 mil. Posteriormente, ele teria descoberto que a dívida estava relacionada às apostas.
O presidente declarou que decidiu “acabar com essa peste” e afirmou que a indústria estava retirando das famílias o dinheiro destinado ao leite, ao pão e ao feijão.
Igor concordou com as críticas às bets, mas perguntou por que a proibição foi decretada apenas nove dias antes da eleição. O apresentador disse ter dificuldade para não enxergar caráter eleitoral na medida.
Lula respondeu inicialmente que só tomou a decisão naquele momento porque desconhecia a dimensão do problema. Depois, admitiu que a proximidade da eleição acelerou a iniciativa: argumentou que, se perdesse, talvez nenhum sucessor acabasse com as plataformas.
Recados aos idosos e aos jovens
Ao encerrar a entrevista, Lula pediu aos eleitores com mais de 70 anos que compareçam às urnas, apesar de o voto ser facultativo nessa faixa etária.
Também prometeu uma política de convivência para idosos, com espaços destinados a exercícios, dança, jogos, cinema, natação e relacionamentos. “Aos 70 anos você pode arrumar muita namorada ainda”, brincou.
Para os jovens, o presidente deixou um apelo pela participação política. Disse que a descrença generalizada abre espaço para líderes ruins e convidou os insatisfeitos a entrar em partidos, associações e movimentos comunitários.
“O político honesto que você quer está dentro de você”, concluiu.
Fonte e Foto: BCnoticias









