A proposta de acabar com a escala 6×1 voltou a ganhar espaço no debate econômico brasileiro após o avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no Senado. Enquanto defensores da mudança destacam a possibilidade de ampliar o tempo de descanso dos trabalhadores, economistas avaliam os possíveis efeitos sobre empresas, preços, emprego e produtividade.
Para Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), uma eventual redução da jornada sem diminuição dos salários tende a elevar o custo da mão de obra por hora trabalhada.
Na avaliação do especialista, as empresas dificilmente conseguiriam absorver todo esse aumento e parte da conta poderia chegar ao consumidor.
“O consumidor vai acabar pagando uma parte disso via aumento de preços”, afirmou.
Empresas podem buscar alternativas
Segundo o pesquisador, diante de custos trabalhistas maiores, as empresas poderiam adotar diferentes estratégias para preservar suas margens.
Uma delas seria substituir trabalhadores com remunerações mais elevadas por profissionais com salários menores, aumentando a rotatividade no mercado de trabalho.
Barbosa Filho ressalta que esse movimento não necessariamente provocaria uma disparada do desemprego. O impacto poderia aparecer principalmente na troca mais frequente de trabalhadores e na reorganização das equipes.
Em determinados cenários, o salário por hora poderia aumentar em até 20%, enquanto a renda mensal média poderia sofrer pressão diante dos ajustes realizados pelas empresas.
Preços podem subir
A redução das horas trabalhadas mantendo o salário mensal significa, na prática, um aumento do custo de cada hora de trabalho.
Empresas que não conseguirem compensar esse aumento com ganhos de produtividade poderão repassar parte dos custos para os preços de produtos e serviços.
O efeito pode ser mais relevante em setores que dependem intensivamente de mão de obra e possuem menor capacidade de automatizar atividades.
O pesquisador também chama atenção para o momento financeiro de algumas empresas brasileiras, que já enfrentam dificuldades e recorrem a processos de reestruturação judicial.
Nesse contexto, um aumento adicional das despesas com trabalhadores poderia pressionar ainda mais negócios com margens reduzidas.
Segundo emprego pode virar alternativa
Outro possível efeito apontado pelo pesquisador está relacionado à renda dos trabalhadores.
A redução da jornada em um emprego não significa necessariamente que o trabalhador terá maior renda disponível. Caso ocorram mudanças na remuneração ou na quantidade de horas extras, alguns profissionais podem procurar uma segunda ocupação para complementar os ganhos.
Segundo Barbosa Filho, esse comportamento já foi observado em experiências internacionais de redução da jornada.
Dessa forma, o ganho de tempo livre proporcionado pelo fim da escala 6×1 poderá não representar o mesmo benefício para todos. Trabalhadores que precisarem buscar outra fonte de renda poderão acabar utilizando parte do tempo que seria destinado ao descanso em uma segunda atividade profissional.
Automação pode ganhar força
A tecnologia também aparece como uma possível resposta das empresas ao aumento do custo da mão de obra.
Para o pesquisador, negócios poderão acelerar investimentos em equipamentos e sistemas capazes de realizar tarefas que atualmente dependem de trabalhadores.
Um exemplo citado é o setor de restaurantes, onde tablets e outros sistemas digitais já são utilizados para registrar pedidos e reduzir determinadas tarefas realizadas por funcionários.
A lógica é que, diante de um aumento estrutural do custo do trabalho, investimentos em tecnologia possam se tornar mais atrativos economicamente.
Debate envolve produtividade e bem-estar
A discussão sobre o fim da escala 6×1 não se limita, portanto, à quantidade de dias trabalhados. A mudança também envolve questões como produtividade, remuneração, preços e capacidade de adaptação das empresas.
Para Barbosa Filho, o principal desafio será garantir que a redução da jornada não seja acompanhada por perda de renda ou dificuldades para manter empregos.
A proposta tem como objetivo ampliar o bem-estar dos trabalhadores e proporcionar mais tempo de descanso e convivência pessoal. Porém, na avaliação do pesquisador, os benefícios dependerão da capacidade de empresas e trabalhadores se adaptarem às novas condições.
O avanço da PEC no Congresso deverá manter o tema no centro das discussões econômicas, especialmente diante da necessidade de conciliar melhores condições de trabalho, competitividade das empresas e aumento da produtividade.









