O elevado endividamento do governo brasileiro e, principalmente, o custo para financiar essa dívida estão entre os principais desafios da economia, na avaliação do economista Jeferson Bittencourt, chefe de macroeconomia da Asa e ex-secretário do Tesouro Nacional.
Para o especialista, o Brasil apresenta uma combinação desfavorável: uma dívida pública elevada em comparação com outros países emergentes e taxas de juros que aumentam significativamente o custo de manutenção desse endividamento.
Brasil está acima de outros emergentes
Na comparação internacional, Bittencourt afirma que a dívida brasileira supera em aproximadamente 20 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) a média observada entre países emergentes considerados semelhantes ao Brasil.
Segundo o economista, entretanto, o tamanho da dívida não é o único problema. O custo necessário para financiá-la também chama atenção.
Na avaliação dele, os juros pagos pelo Brasil atingem níveis que normalmente aparecem em economias submetidas a situações graves de instabilidade, como crises cambiais ou conflitos.
Mercado interno concentra financiamento
Outro fator destacado pelo especialista é a forma como o governo brasileiro financia sua dívida.
Grande parte dos títulos públicos é adquirida por investidores que atuam no próprio mercado nacional. Esse modelo reduz a dependência de recursos externos e diminui a necessidade de gerar dólares para honrar os compromissos.
Por outro lado, a estratégia aumenta a disputa pelos recursos disponíveis dentro da economia brasileira.
Com uma parcela significativa da poupança nacional direcionada ao financiamento do governo, sobra menos espaço para empresas e famílias acessarem recursos para investimentos, consumo e expansão de negócios.
Participação estrangeira caiu
Bittencourt também aponta uma mudança no perfil dos investidores da dívida pública brasileira após o país perder o chamado grau de investimento.
Segundo ele, quando o Brasil possuía essa classificação, os investidores estrangeiros representavam cerca de 20% do financiamento da dívida. Posteriormente, essa participação teria caído para aproximadamente 10%.
Com a redução da presença estrangeira, investidores domésticos passaram a ocupar um espaço maior na estrutura de financiamento do governo.
Disputa por poupança pode afetar economia
Na avaliação do economista, o problema se torna mais evidente porque o Brasil é uma economia de renda média e possui uma capacidade de poupança considerada limitada em relação às necessidades de financiamento.
Nesse cenário, o governo disputa recursos com o setor privado no mercado doméstico.
A consequência pode ser uma menor disponibilidade de crédito e financiamento para empresas e famílias, especialmente em um ambiente de juros elevados.
O alerta reforça um dos principais desafios da política econômica brasileira: equilibrar a necessidade de financiar as contas públicas sem ampliar excessivamente o custo da dívida e sem retirar recursos que poderiam ser direcionados ao investimento privado.
Para Bittencourt, portanto, o debate sobre a dívida brasileira não deve considerar apenas o volume total dos débitos. O custo dos juros, a composição dos investidores e a disputa pelos recursos disponíveis na economia também são fatores determinantes para o crescimento do país.









