Três anos após a seca histórica de 2023, o Amazonas volta a enfrentar a redução do nível dos rios, com 47 municípios em situação de emergência e mais de 146 mil famílias afetadas, segundo boletim da Defesa Civil estadual atualizado nessa sexta-feira (30/10). Comunidades ribeirinhas relatam dificuldades de deslocamento, enquanto pesquisadores alertam para problemas estruturais que comprometem o acesso à água potável e aos serviços essenciais.
Na comunidade Nossa Senhora do Livramento, no Tarumã-Mirim, zona rural de Manaus, Anacá Miranha, de 82 anos, voltou a conversar com A CRÍTICA três anos após relatar os efeitos da seca histórica. Líder de um grupo da terceira idade, ela conta que precisou interromper as atividades porque parte dos participantes vive em áreas de difícil acesso e não consegue chegar aos encontros. “Eu tô com o movimento parado, porque o rio tá seco, o idoso que mora lá longe não pode vir pra cá”, relatou.
Durante a cheia, Anacá costuma visitar moradores de canoa, mas a estiagem dificulta o contato com quem precisa de assistência. “Existem idosos que não saem mais de casa, outros que moram lá por dentro do mato, mesmo sozinhos com os cachorros. E a necessidade é grande”, afirmou.
A moradora também relata situações de vulnerabilidade social e a mobilização de vizinhos para auxiliar pessoas que precisam de atendimento médico.
Desafios durante a seca
Anacá também encontra dificuldades para buscar ajuda fora da comunidade. Atualmente, conta com o apoio de um filho, que passou a morar com ela em julho e auxilia nas compras. Com a descida das águas, o transporte de mantimentos exige percorrer trajetos maiores até as residências.
“[Aqui] tem pessoas mesmo necessitadas, entende? Necessitadas e a dificuldade é muito grande. Para a gente carregar as coisas lá de baixo para cá, eu agora que estou com o meu filho que veio para cá por conta da seca, ele me ajuda muito”, contou.
Apesar das dificuldades, ela elogia as equipes de saúde que utilizam pequenas embarcações para realizar consultas e vacinação no Tarumã-Mirim. A moradora, porém, defende a instalação de unidades de atendimento nas localidades mais afastadas.
“O que nós precisamos é que haja um atendimento, que tenha um posto de saúde nas comunidades. Mesmo um postinho, que não seja necessário a pessoa estar se deslocando, pagando passagem para vir aqui na comunidade de Livramento”, disse.
climáticos atuais diferem dos observados em 2023 e 2024, quando o aquecimento do Atlântico Tropical Norte também teve influência importante.
“As temperaturas globais dos oceanos, de modo geral, estão muito acima de patamares já registrados para esse período do ano. Então, a gente está em um momento realmente muito preocupante do ponto de vista de aquecimento planetário dos oceanos e do fenômeno El Niño”, afirmou.
No Médio Solimões, os rios permaneceram próximos da normalidade, se aproximando da estabilização, inclusive, na região de Iquitos, no Peru, o nível do rio começou a encher diariamente desde o dia 17 de outubro. “O fato é que o nível no momento, na região, está abaixo da média, porém muito acima dos níveis de 2023 e 2024”, explicou.
Outubro costuma registrar os níveis mínimos dos rios, com expectativa de subida a partir de novembro. Para Fleischmann, a principal preocupação está na recuperação das águas nos próximos meses e nos possíveis efeitos sobre o ciclo hidrológico de 2027.
“Se esses níveis dos rios, que já estão abaixo da média agora, tiverem um crescimento lento nos próximos meses, em decorrência do El Niño, a gente pode, de fato, ter uma cheia fraca no próximo ano e, em consequência, uma seca forte”, alertou.
O pesquisador ressalta, entretanto, que a situação atual ainda é diferente dos episódios extremos anteriores. “Muitas comunidades, de fato, já estão sendo afetadas, mas nem de perto estamos próximos à realidade de 2023 e 2024”, ponderou.
Fonte: Acrítica.com









