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Home Economia

Renda recorde e desemprego baixo: por que o brasileiro segue endividado, mesmo ganhando mais?

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8 de maio de 2026
in Economia
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Renda recorde e desemprego baixo: por que o brasileiro segue endividado, mesmo ganhando mais?
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Resposta vai além do salário, da oferta de emprego ou de uma economia aquecida. Fatores como o custo de vida elevado, o crédito caro e a dependência de financiamentos explicam o fenômeno.

Economia – Nesta semana, o governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil, segunda edição de seu programa de renegociação de dívidas, voltado a aliviar a pressão financeira das famílias. A iniciativa prevê impactar até cerca de 20 milhões de pessoas, com a expectativa de renegociar até R$ 58 bilhões em dívidas, entre débitos antigos e novos.

O endividamento das famílias brasileiras — como financiamentos, cartões de crédito e empréstimos — segue em trajetória de alta e atingiu 80,9% em abril, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A inadimplência (que são as dívidas em atraso) também permanece elevada, em 29,6% das famílias.

O cenário de alto endividamento contrasta com indicadores econômicos que, à primeira vista, sugerem um quadro favorável: desemprego em mínima histórica, renda média em alta e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) pelo quinto ano consecutivo.

No trimestre encerrado em março, o mercado de trabalho chegou a uma taxa de desemprego de 6,1% — o menor patamar para o período — e o rendimento médio mensal para acima de R$ 3.722, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A resposta vai além do salário, da oferta de emprego ou de uma economia aquecida. Fatores como o custo de vida elevado, o crédito caro e a dependência de financiamentos para sustentar o consumo ajudam a explicar o fenômeno.

Aperto financeiro

Após o impacto da pandemia na economia, o Brasil adotou juros historicamente baixos para estimular a economia. Em outubro de 2020, a taxa Selic chegou a 2% ao ano, o que facilitou o acesso ao crédito e ajudou a reaquecer a economia durante a crise.

Mas, com a reabertura nos anos seguintes, entre 2021 e 2022, a inflação disparou. O Banco Central foi obrigado a mudar bruscamente de direção e subir os juros. A forma de conter os preços é encarecer novamente o crédito e reduzir o ímpeto de consumo do brasileiro.

O ciclo de altas de juros foi agressivo, o que levou a Selic para 13,75% ao ano em agosto de 2022. Uma das heranças do incentivo ao consumo foi um maior endividamento das famílias

Em maio de 2023, o governo federal lançou o primeiro Desenrola. O programa conseguiu reduzir temporariamente a inadimplência, com a renegociação de R$ 53,2 bilhões em dívidas de 15 milhões de brasileiros.

A aposta era que, com a queda dos juros iniciada naquele momento (de 13,75% para cerca de 10,50% ao ano até meados de 2024), as famílias conseguiriam reorganizar as finanças.

Mas esse alívio não se sustentou. Ao longo de 2024 e, principalmente, em 2025, as incertezas na economia global — como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos — fizeram os preços subirem novamente.

Resultado: o BC voltou a agir e a taxa básica de juros do país chegou a 15% ao ano em junho de 2025, o maior patamar desde 2006.

Segundo o economista Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, mesmo a melhora recente no mercado de trabalho não foi suficiente para aliviar o orçamento das famílias.

Embora o desemprego tenha caído e a renda tenha crescido, o custo de vida continua maior que anos atrás e há o peso das dívidas. “É perfeitamente possível ter um mercado de trabalho aquecido e, ao mesmo tempo, famílias mais endividadas”, afirma.

Muitas famílias ainda carregam dívidas acumuladas desde a pandemia. Dados do Banco Central indicam que o comprometimento da renda das famílias com dívidas, especialmente bancárias, chegou a 29,3% em janeiro deste ano, o maior nível da série histórica.

Com mais dívidas a pagar, o orçamento continua apertado. Na prática, qualquer renda extra acaba sendo direcionada para despesas básicas, como alimentação, moradia, transporte e pagamento de dívidas acumuladas, sem gerar alívio financeiro.

Dados de uma pesquisa Quaest apontam que 71% dos brasileiros dizem conseguir comprar menos do que há um ano, enquanto 11% afirmam comprar mais e 17% não veem diferença.

“As famílias sentem a economia principalmente pelos itens mais frequentes do orçamento, sobretudo os alimentos”, afirma.

Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, mostram esse cenário:

  • No início do Desenrola, em maio de 2023, a alta nos preços dos alimentos, considerando os 12 meses anteriores, acumulava 5,54%.
  • Depois, o índice seguiu em trajetória de aceleração com algumas quedas pontuais e chegou a 7,81% em abril de 2025.
  • No mesmo período, a inflação (a alta de preços em toda a economia) alcançou 5,53%, maior nível desde janeiro de 2023 (5,77%).

Os dados do instituto também revelam forte volatilidade nos preços de vários alimentos básicos nos últimos anos, com alguns itens registrando picos de inflação muito acima da inflação geral.

O arroz teve a maior alta, chegando a 74,14% no acumulado em 12 meses em janeiro de 2021, enquanto feijão, leite, frutas e hortaliças também registraram aumentos expressivos acima de 20% em diferentes períodos.

Mais recentemente, as carnes passaram a liderar a inflação entre os alimentos básicos, com alta acumulada de 21,17% em janeiro de 2025.

Além disso, os brasileiros estão com menos renda disponível após pagar pelas despesas básicas. Em março deste ano, os gastos com itens essenciais consumiam 41,8% do orçamento das famílias, pressionados principalmente por habitação, transportes, saúde, educação e alimentação, segundo dados do IBGE compilados pela Tendências Consultoria.

Isso significa que uma parcela maior da renda das famílias está sendo usada para cobrir gastos básicos do dia a dia, sobrando menos dinheiro para consumo, lazer, poupança ou pagamento de dívidas.

Com o orçamento mais pressionado, o poder de compra diminui e cresce a dificuldade para sair do endividamento.

Além do cenário econômico, o comportamento financeiro também ajuda a explicar por que o endividamento segue alto no país, mesmo com sinais recentes de melhora no emprego e na renda.

Para a economista Olívia Resende, especialista em finanças e economia comportamental, o chamado viés do presente ajuda a explicar por que o consumo segue forte mesmo diante de juros elevados.

Fonte: G1

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