Entenda a definição desses elementos e por que eles são tão disputados na geopolítica mundial. Especialistas os comparam a ‘vitaminas da indústria tecnológica’: em pequenas quantidades, garantem a eficiência e o funcionamento de celulares a carros elétricos
Educação – O avanço da tecnologia e a corrida pela energia limpa colocaram o Brasil no centro de uma disputa geopolítica global, já que o país tem a segunda maior reserva das chamadas terras raras (curiosidade: na verdade, elas não são terras e tampouco raras, como você entenderá nesta reportagem).
Após ter sido pauta do Congresso Nacional e tema estratégico de conversa entre os presidentes Lula e Donald Trump (EUA), o brasileiro disse, nesta segunda-feira (18), que espera que Trump deixe de “brigar” com o líder chinês Xi Jinping e passe a se associar ao Brasil em projetos ligados ao setor.
Nesta reportagem, veja as respostas para as seguintes questões:
- O que são terras raras e quais elementos fazem parte desse grupo?
- O que diferencia as terras raras de metais comuns como cobre ou ferro?
- Como elas aparecem no seu dia a dia e por que são basicamente insubstituíveis?
- Por que o processamento desses elementos é tão caro e complexo?
- Qual a diferença entre terras raras ‘leves’ e ‘pesadas’?
- Qual o custo ambiental da extração?
- O que faz do Brasil um território privilegiado?
- Por que o Brasil ainda não aproveita todo o seu potencial?
- Como funciona a ‘guerra fria’ das terras raras entre China e EUA?
- O que está em jogo na conversa entre Lula e Trump e no Congresso?
O interesse mundial nas terras raras tem uma explicação: a eficiência. Esses elementos (com nomes complicados, como neodímio, praseodímio e disprósio) funcionam como as “vitaminas” da indústria tecnológica, essenciais para fabricar desde motores potentes de carros elétricos até o sistema que faz o seu celular vibrar.
Embora o Brasil destaque-se na concentração desses recursos, ainda não detém a tecnologia necessária para processá-los. O desafio brasileiro é deixar de ser apenas um fornecedor de matéria-prima e tornar-se uma potência tecnológica.
As terras raras receberam esse nome no final do século XVIII e no início do XIX. Não é exatamente uma terminologia precisa: elas não são “terras” e nem tão “raras” assim na crosta terrestre. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos da Tabela Periódica (sim, aquela que você estudou na escola).
Fazem parte deste grupo:
- Os 15 lantanídeos: elementos que vão do lantânio ao lutécio. Eles são “quimicamente pegajosos”: onde está um, geralmente estão todos os outros, o que torna a separação deles um dos maiores desafios da engenharia moderna.
➡️O nome “lantanídeo” vem do primeiro elemento da fila, o Lantânio (do grego lanthanein, que significa ‘escondido’). É um nome muito apropriado, porque são elementos que ficam “escondidos” uns dentro dos outros nas rochas.
- Escândio e ítrio: costumam aparecer associados aos lantanídeos e, por isso, também recebem o rótulo de “terras raras”.
Enquanto o ferro e o cobre são usados em grandes volumes para construção e fiação, as terras raras operam como componentes de altíssima performance.
De acordo com Sidney Lima Ribeiro, professor titular no Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a explicação técnica para esse poder está na estrutura atômica:
➡️Os elétrons ficam em uma camada tão profunda do átomo (orbitais 4f) que não sofrem interferência do ambiente externo. Por isso, eles mantêm o “spin” (que você pode imaginar como o giro constante de um pião) sempre na mesma direção.
➡️É esse giro protegido e incessante que garante que um ímã de neodímio, por exemplo, seja muito mais forte e estável do que um ímã de geladeira comum.
2- Outra grande diferença das terras raras em relação a outros metais é a estabilidade.
Alguns desses elementos conseguem manter a condução elétrica e o magnetismo mesmo quando o equipamento esquenta muito.
Até existem, mas há perda de qualidade. “Há substitutos parciais, mas não equivalentes em desempenho. Se usarmos outros materiais, o equipamento pode ficar mais pesado, menos eficiente, maior ou consumir muito mais energia”, explica o pesquisador Ysrael Marrero Vera.
Quais tecnologias são geradas a partir das terras raras?
Se você abrir um celular, desmontar um carro elétrico ou observar uma torre de energia eólica, encontrará terras raras. Elas são essenciais porque permitem um alto desempenho com pouca massa. Em outras palavras: graças a elas, conseguimos criar aparelhos minúsculos que são incrivelmente poderosos.
Veja como elas aparecem no seu dia a dia e por que se destacam:
- Superímãs (Neodímio e Praseodímio): São os “músculos” da tecnologia. Em um carro elétrico, esses ímãs permitem que o motor seja pequeno e leve, mas com força suficiente para acelerar o veículo. Sem eles, precisaria ser gigante para ter a mesma potência.
- Celulares e Eletrônicos: Estão nos alto-falantes e no sistema que faz o aparelho vibrar. Também garantem o brilho e as cores vibrantes das telas (graças ao európio e térbio).
- Energia Limpa: Uma única turbina eólica de grande porte pode usar centenas de quilos de neodímio em seus geradores para transformar vento em eletricidade de forma eficiente.
- Saúde e Defesa: São fundamentais em máquinas de ressonância magnética, lasers cirúrgicos, drones, sensores e sistemas de orientação de satélites.
Por que o processamento desses minerais é tão caro e complexo?
O problema não é achar o minério, mas “desgrudar” um elemento do outro. Como são quimicamente muito parecidos (os tais “irmãos gêmeos”), separá-los exige um processo industrial exaustivo e caro. O processamento um dos maiores desafios da engenharia moderna.
Em resumo, o preço elevado não se deve à escassez geológica, mas à exigência industrial:
- consumo massivo de reagentes: uso repetitivo de ácidos e ingredientes orgânicos caros;
- infraestrutura especializada: necessidade de plantas industriais contínuas com controle rigoroso de pH e acidez;
- gestão de resíduos: tratamento de efluentes (metais, sulfatos e nitratos) e controle de radioatividade natural para evitar desastres ambientais.
- conhecimento técnico: profissionais com formação avançada para operar processos que a China levou mais de 50 anos para dominar.
Fonte: G1