O g1 conversou com diaristas e especialistas para detalhar o que muda em relação à limpeza tradicional e quais são os principais riscos e cuidados do modelo.
Geral – Durante anos, o trabalho de diarista ocupou a vida de Cláudia Rodrigues de maneira exaustiva. A rotina começava às 3h da manhã: ônibus lotado, longos deslocamentos por São Paulo e chegada às casas dos clientes antes do amanhecer.
As jornadas eram longas, os ambientes, enormes. Cláudia limpava do chão ao teto, sem saber se sairia dali no meio da tarde ou já à noite. Com semanas cheias, eram mais de 20 diárias mensais.
Por dia, recebia R$ 120. Após pagar transporte e alimentação, chegava em casa com cerca de R$ 80.
São tempos que ficaram para trás. Hoje, Cláudia continua trabalhando com limpeza, mas em outro patamar: ela se tornou diarista premium.
Seus pacotes custam R$ 250 (4h), R$ 280 (6h) e R$ 330 (8h), com adicionais entre R$ 80 e R$ 100 para serviços como limpeza de geladeira e armários. A agenda ficou tão cheia que ela contratou uma colaboradora para acompanhar a demanda.
Segundo o IBGE, o rendimento médio real habitual dos trabalhadores domésticos foi de R$ 1.367 em 2025. O valor se refere à média geral da categoria, sem distinção entre quem tem carteira assinada e quem não tem.
As diaristas premium conseguem faturar quase seis vezes mais que a média dos domésticos ao refinar o serviço e atender um público de alto padrão.
Cláudia conta que sua virada aconteceu quando descobriu, no Instagram, que havia outra forma de fazer o que sempre fez. Encontrou profissionais falando sobre técnica, método, organização e posicionamento. Não era uma nova profissão — era um novo olhar sobre a limpeza.
Essa reinvenção também cria um ecossistema próprio. Algumas delas usaram os aprendizados para lançar cursos, listas de produtos e conteúdos que fortalecem a profissão e ajudam a combater o preconceito ainda existente.
Cláudia, por exemplo, investiu em mentoria, mudou a forma de atender, passou a levar os próprios produtos, estruturou pacotes por hora e adotou técnicas de detalhamento — do uso de pincéis ao acabamento de metais.
A imagem profissional também virou parte central do negócio. A diarista investiu em fotos, passou a usar uniforme e formalizou o trabalho como microempreendedora individual (MEI).
Essa transformação também marcou a trajetória de Gabriela Valente. Ela pediu demissão de um emprego com carteira assinada porque acreditava que a faxina poderia trazer mais retorno. A decisão gerou insegurança, mas a aposta deu certo.
Durante a pandemia, Gabriela lotou a agenda com pacotes que chegavam a R$ 400 por dia. Ao mesmo tempo, viu colegas perderem clientes e enfrentarem dificuldades.
Hoje, Gabriela é diarista por escolha. Além dos atendimentos, atua como mentora, palestrante e criadora de conteúdo. Ela também criou seu próprio produto de limpeza.
“Passei fome. Vendi roupa para comer. Hoje, tudo mudou. Consegui reformar a casa da minha mãe, construir a lavanderia dos sonhos dela, montar um escritório e pagar colégio particular para meus filhos”, relata.
Mesmo com novas frentes de trabalho, Gabriela mantém quatro clientes fixos. Para novos contratantes, cobra R$ 600 por quatro horas e R$ 1.000 por oito horas. Mas não revela ao g1 quanto fatura por mês.
Trabalha uniformizada e leva uma mala de 23 quilos com equipamentos profissionais. Nas aulas, ela insiste que a técnica evita prejuízos. Em casas com porcelanatos de R$ 5 mil o metro ou sofás de R$ 30 mil, um erro pode sair muito caro.
A diarista detalha as diferenças entre pisos, rejuntes e estofados e orienta sobre os produtos adequados para cada superfície.
Embora muitas profissionais se sintam atraídas pela promessa de autonomia e ganhos maiores, sindicatos e consultores reforçam que essa transição não é simples. Ignorar riscos pode comprometer a estabilidade que muitos buscam ao deixar o emprego formal.
O Sebrae alerta que diaristas autônomas não têm Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), férias remuneradas, 13º salário ou aviso prévio. Também reforça que a faxina premium não é uma nova categoria formal, mas um movimento de mercado em um contexto de queda do emprego fixo.
Está cada vez mais custoso ter um trabalhador doméstico formalizado. Além disso, os próprios profissionais perceberam que o trabalho como diarista é mais lucrativo e dá mais liberdade para ter mais tempo livre ou investir em outras atividades”, explica Glauco Nunes, coordenador de Mercado do Sebrae Rio.
Segundo a entidade, o sucesso depende de planejamento. Isso vai desde a forma de se vender até a precificação e a gestão do orçamento.
Fonte: G1
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