Cemitério de Manaus vira sala de cinema para exibir documentário sobre santa popular assassinada em 1901

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Exibição de ‘Etelvina – A Ressignificação da Tragédia’, no Cemitério São João Batista, relembrou a história de Etelvina de Alencar, mulher morta por ciúmes e transformada em símbolo de fé em Manaus.

Manaus – O Cemitério São João Batista, na Zona Centro-Sul de Manaus, se transformou em uma sala de cinema a céu aberto na noite desta sexta-feira (15) para a estreia do documentário “Etelvina – A Ressignificação da Tragédia”. O público acompanhou a exibição entre túmulos e corredores do espaço histórico onde está sepultada Etelvina de Alencar, mulher assassinada em 1901 e que, ao longo das décadas, passou a ser conhecida como “Santa Etelvina” por devotos da capital amazonense.

A escolha do cemitério para receber a estreia do filme deu um tom simbólico à exibição. Além de abrigar o túmulo de Etelvina, visitado por fiéis durante todo o ano, o São João Batista também foi apresentado pelos realizadores como um espaço de memória, fé e reflexão sobre a violência contra a mulher.

Segundo o diretor do documentário, Cleinaldo Marinho, a ideia de realizar a estreia no local surgiu durante as pesquisas feitas para a produção.

“Eu percebi isso durante as abordagens aqui, vindo para cá, pesquisando. Quantas pessoas vêm para cá ter fé? Nada mais simbólico do que trazer para cá”, afirmou.

Durante a noite, moradores, curiosos, artistas e devotos acompanharam a sessão no próprio ambiente que ajudou a construir a memória em torno da santa popular. O clima de silêncio típico do cemitério deu lugar a movimentação, conversas e reações do público após a exibição.

Para o diretor, ocupar o espaço com arte também representa uma forma de devolver voz a histórias que atravessaram gerações.

O turismólogo Silvio Alencar, que assistiu a estreia, afirmou que o lançamento dentro do cemitério aproximou o público da história retratada no filme e também acredita que foi uma forma de atrair mais a curiosidade das pessoas.

“Foi uma brilhante estratégia atrair o público diretamente para o local onde se passam essas histórias. Ao invés de outros espaços, trouxeram o público para um patrimônio histórico que precisa ser mais conhecido. Além dessas histórias mostradas no filme, existem tantas outras incríveis que podem ser exploradas, inclusive turisticamente”, declarou.

O documentário mistura depoimentos de devotos, documentos históricos e cenas dramatizadas para reconstruir a trajetória de Etelvina, todos gravados de forma espontânea, sempre no Dia de Finados, durante visitas da equipe ao cemitério.

A produção foi desenvolvida ao longo de dois anos e meio, mas nasceu de uma pesquisa iniciada ainda nos anos 1990 pelo diretor.

A produção também recriou, em cenas dramatizadas, a antiga Colônia Campos Salles — área que atualmente corresponde ao bairro Santa Etelvina, na Zona Norte de Manaus. A atriz Rosana Neves interpretou Etelvina nas sequências ficcionais.

Assassinato e crença popular

Etelvina foi morta aos 22 anos, em um crime motivado por ciúmes e que também terminou com a morte de outras quatro pessoas. Com poucos registros históricos sobre o caso, a memória popular acabou mantendo viva a história da jovem.

Hoje, o túmulo dela recebe flores, velas e pedidos de graças de devotos que acreditam na intercessão da chamada “Santa Etelvina”.

Para Cleinaldo Marinho, o filme também abre espaço para discutir feminicídio e violência contra a mulher.

O diretor disse ainda que o objetivo da obra não é entregar respostas prontas, mas provocar questionamentos sobre memória, violência e construção social das narrativas.

O documentário foi contemplado pelo Edital de Audiovisual da Lei Paulo Gustavo, por meio do Conselho Municipal de Cultura (Concultura), com recursos do Governo Federal. A equipe agora pretende inscrever a produção em festivais de cinema e ampliar a circulação da obra.

Fonte: G1

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