Pesquisa aponta que a prucaloprida, medicamento já aprovado para constipação crônica, pode ajudar a reduzir a chamada “névoa mental” associada aos transtornos depressivos.
Saúde – Um medicamento amplamente utilizado no tratamento da constipação crônica pode representar uma nova esperança para pessoas que convivem com dificuldades de memória e concentração após episódios de depressão. Um estudo publicado na revista científica Psychological Medicine revelou que a prucaloprida apresentou resultados promissores na melhora de funções cognitivas frequentemente afetadas pela doença.
Os chamados sintomas cognitivos da depressão — conhecidos popularmente como “névoa mental” — incluem problemas de atenção, lentidão no raciocínio, esquecimentos e dificuldade para tomar decisões. Em muitos casos, essas alterações persistem mesmo após a melhora dos sintomas emocionais, comprometendo a qualidade de vida e o retorno às atividades diárias.
Para investigar o potencial terapêutico da prucaloprida, pesquisadores recrutaram 50 adultos, com idades entre 18 e 40 anos, que já haviam enfrentado pelo menos dois episódios de depressão. Todos estavam recuperados havia, no mínimo, seis meses e não utilizavam medicamentos no período da pesquisa.
Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos. Um deles recebeu 2 miligramas de prucaloprida diariamente durante sete a dez dias — dose já aprovada para o tratamento da prisão de ventre crônica. O segundo grupo recebeu placebo, sem princípio ativo.
Antes e após a intervenção, os voluntários passaram por uma série de avaliações voltadas à análise da memória de curto e longo prazo, velocidade de processamento de informações, funções executivas e reconhecimento emocional. Os resultados mostraram que aqueles que utilizaram a prucaloprida apresentaram melhor desempenho em tarefas cognitivas, com respostas mais rápidas e precisas em comparação ao grupo placebo.
Segundo a pesquisadora Angharad de Cates, da Universidade de Birmingham e autora correspondente do estudo, os achados ajudam a lançar luz sobre um aspecto frequentemente negligenciado da depressão.
“Os problemas cognitivos são uma característica importante da depressão e podem persistir mesmo quando o humor melhora. Nosso estudo sugere que um medicamento direcionado ao receptor de serotonina 5-HT4, já utilizado para constipação crônica, pode contribuir para a melhora do funcionamento cognitivo em pessoas com histórico da doença”, afirmou.
A explicação para esse possível benefício está na atuação da prucaloprida sobre os receptores 5-HT4, estruturas relacionadas à serotonina, neurotransmissor que desempenha papel importante tanto na regulação do humor quanto nos processos de aprendizagem e memória.
Para Susannah Murphy, professora associada da Universidade de Oxford e autora principal da pesquisa, o estudo abre caminho para novas abordagens terapêuticas.
“Para muitas pessoas, a recuperação da depressão não é completa porque as dificuldades de memória e concentração continuam presentes. Esses resultados fornecem evidências iniciais de que medicamentos que atuam sobre o receptor 5-HT4 podem ajudar a restaurar aspectos importantes da função cognitiva”, destacou.
Apesar do entusiasmo gerado pelos resultados, os próprios pesquisadores reforçam que são necessários estudos maiores e de longo prazo para confirmar a eficácia e a segurança da estratégia antes que ela seja incorporada à prática clínica. Por isso, especialistas alertam que a prucaloprida não deve ser utilizada por conta própria como tratamento para depressão ou problemas de memória.
A pesquisa reforça uma tendência crescente na medicina: o reaproveitamento de medicamentos já aprovados para novas finalidades terapêuticas. Caso os resultados sejam confirmados em investigações futuras, o remédio poderá representar uma alternativa inovadora para combater uma das consequências mais persistentes e incapacitantes dos transtornos depressivos.
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