‘Ganhei na loteria e continuei devendo’: por que limpar o nome não basta para tirar os brasileiros das dívidas

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Programas de renegociação podem aliviar a inadimplência, mas histórias reais mostram que o crédito fácil e a falta de educação financeira seguem empurrando brasileiros para o vermelho.

Economia – As sextas-feiras eram sagradas para o empresário Delano Zonta: dia de apostar na loteria. Segundo ele, o jogo era uma tentativa de aliviar um orçamento já sufocado por dívidas.

Mais de uma vez, Zonta misturou contas pessoais com as da empresa, e chegou a sacar todo o dinheiro do negócio para comprar um carro novo. Mas foi o uso desenfreado do cartão de crédito que fez sua vida financeira sair do controle.

“Eu gastava no cartão mais do que conseguia pagar. Quando a fatura vinha, entrava no cheque especial e dizia para mim mesmo que depois tentaria resolver”, diz.

Com ajuda de um amigo gerente de banco, o empresário contratou novos empréstimos para quitar dívidas antigas. Assumiu parcelas maiores do que podia pagar e entrou em um novo ciclo de endividamento, somando cartão de crédito, cheque especial e novos empréstimos para cobrir os anteriores.

Zonta já havia falido três vezes e acumulava mais de R$ 230 mil em dívidas. Até que a sorte bateu à porta do empresário: em um sábado, quando tinha apenas R$ 42 na conta, ganhou R$ 35 mil na quina da Mega-Sena.

Com as contas zeradas, o empresário ainda devia mais de R$ 216 mil. “Aquele foi um dos piores dias da minha vida, com um sentimento enorme de fracasso. Mas também foi o dia em que decidi que não dava mais para continuar assim”, afirma.

Naquela noite, Delano começou a estudar o funcionamento do sistema bancário. Separou as dívidas, organizou o orçamento e passou a cuidar melhor do dinheiro. A esposa foi fundamental no processo.

Foram quase quatro anos até que Delano Zonta conseguisse honrar todos os seus compromissos: a última parcela, de R$ 316, foi paga em janeiro de 2020. No mesmo ano, o empresário iniciou a formação como planejador financeiro — e agora vive, justamente, de educação financeira.

Zonta é um dos milhares de brasileiros que já ficaram endividados no país. Agora, como planejador financeiro, alerta: de nada adianta a renegociação para aqueles que continuam com os mesmos padrões de comportamento.

“O problema do Brasil e do endividamento não é só a falta de crédito ou os juros altos. O problema é que as pessoas não aprendem ‘na base’ [quando crianças] a lidar com dinheiro, e isso se reflete na vida toda”, diz.

O debate sobre o nível de endividamento do país voltou a ganhar força após o governo federal lançar, no início da semana, o Desenrola 2.0 — novo programa de renegociação de dívidas.

O programa promete reduzir débitos atrasados e ajudar a limpar o nome de milhões de brasileiros. Dados recentes do Serasa, por exemplo, indicaram mais de 80 milhões de endividados no país.

Mas, para quem já esteve muito endividado e conseguiu se reorganizar, uma medida como essa tem efeito limitado.

Para uma minoria, pode até ser positivo, porque vai liquidar a dívida e evitar novas quedas no endividamento. Mas, do ponto de vista estrutural, é apenas enxugar gelo”, completa.

A planejadora financeira Mônica Cardoso concorda e diz que as renegociações demandam alguma cautela por parte dos endividados, para que uma dívida resolvida agora não se transforme em outra no futuro.

“Infelizmente, uma reserva não vai sanar o problema. É preciso cuidado para não se endividar de novo depois de um ou dois anos”, diz.

Segundo Wagner Pagliato, coordenador do curso de ciências contábeis da Unicid, casos de endividamento crônico costumam estar ligado à falta de alinhamento nas decisões de consumo e à pressão social para manter um padrão de vida acima da renda.

Esse “sufocamento” financeiro pode afetar até a saúde. “O endividamento pode gerar estresse, ansiedade, sensação de culpa e até negação da situação financeira. A dívida deixa de ser apenas uma questão financeira e passa a envolver comportamento, hábitos e saúde emocional”, completa.

Fernanda* foi uma das vítimas de um imprevisto. Sua vida financeira mudou no fim de 2024, quando teve o celular roubado. Além de mais de R$ 40 mil em compras no cartão de crédito, criminosos também contrataram um empréstimo de R$ 150 mil em seu nome.

Quando o empréstimo foi feito pelos criminosos, seu nome ficou negativado, e o banco usou todo o dinheiro disponível em conta para quitar parte da dívida.

“Entrei no cheque especial e fui ficando cada vez mais no vermelho, principalmente por causa dos juros. Uma dívida de R$ 30 mil que eu tinha no cartão se transformou em R$ 112 mil”, conta.

Fernanda afirma que avalia se inscrever no Desenrola 2.0 para tentar resolver o problema. “A verdade é que ninguém quer ficar com o nome sujo. Quero resolver essa situação”, comenta.

Além de eventos imprevistos, especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que o endividamento muitas vezes ocorre por motivos emocionais ou familiares.

A secretária Tatiana*, por exemplo, conta que viu suas finanças entrarem em colapso após um relacionamento que terminou mal. Ao tentar ajudar o então parceiro, ela acabou comprometendo seu benefício do INSS e assumindo dívidas maiores do que podia pagar.

Eu estava apaixonada e não percebi que fui induzida a pegar um empréstimo consignado para ajudá-lo a montar o negócio dele. Depois ainda fomos fazer uma viagem de cruzeiro em que eu acabei pagando tudo. Parcelei e fui me endividando”, conta ela.

Apesar das dívidas no cartão de crédito, ela continuou tendo acesso ao crédito com facilidade. Pegou novos empréstimos para quitar débitos anteriores, com linhas de crédito pessoal e até um limite maior no cheque especial.

Com uma dívida de quase R$ 100 mil, a secretária conta que precisou mudar hábitos de consumo e, com a ajuda de uma planejadora financeira, decidiu tirar as contas do débito automático. O objetivo era juntar recursos para tentar negociar melhores descontos com os bancos.

Fonte: G1

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